Para quem ainda não sabe estive fora de 17 de junho ao dia 6 de julho, fazendo um curso de ilustração na cidade de Sàrmede, Itália. Devo dizer que voltei um tanto quanto… mudada. Depois de passar duas semanas imersa em ilustração, falando e fazendo apenas isso, é difícil que algo não mude na cabeça da gente, especialmente porque sequer toquei em um computador enquanto estive lá (para ilustrar, digo). Era tudo feito à mão, algo meio raro (infelizmente!) no meu dia-a-dia. Além de tudo, estar longe de seu ambiente, cercado de pessoas que não falam a sua língua, te dá um bom tempo para pensar nas coisas. E como eu pensei! Não vou ficar entrando em detalhes, afinal isso é assunto meio íntimo (ainda que diga respeito ao meu trabalho - já bastam Twitters, Orkuts e Facebooks da vida, né?), mas digo que o que quero agora é enfiar (mais ainda) a cara no trabalho, mas não apenas naquele do dia-a-dia, o que paga as contas - que em geral é um tanto cheio de restrições de editores, e às vezes (ou muitas vezes?) um pouco entediante - mas naquele pessoal, experimental, aquele que nos instiga e nos estimula a continuar. Enfim.


Sàrmede, Treviso - Itália.
Voltando aos cursos, fui à Sàrmede para fazer na verdade dois cursos, com duração de uma semana cada, na escola mantida pela Fondazione Mostra Internazionale di Illustrazione per l’Infanzia Stepan Zavrel , que leva o nome de seu criador, o ilustrador Checo Stepan Zavrel, que foi para Sàrmede no final dos anos 70, e em 1983 fundou a escola. A Fondazione, além de promover cursos de verão e laboratórios, sempre com ilustradores renomados, também realiza diversas exposições itinerantes, sempre com o melhor da ilustração contemporânea. Fiquei encabulada com a dedicação das pessoas envolvidas na organização, e o amor com que realizam esse trabalho, que inclusive é voluntário. Deu vontade de ficar por lá e ajudar também!

Stepan Zavrel e um de seus afrescos.
A primeira semana de curso foi com o ilustrador também Checo Jindra Capek. Não conhecia seu trabalho até ver seu nome no site da Fondazione. Dei uma olhada na internet, e o pouco que encontrei (afinal, muitos dos ilustradores “old school” não são muito chegados nessa vida online de hoje…) me agradou muito! Seu estilo é bem diferente das tendências atuais, bastante detalhista e construído sob uma forte base naturalista. Tive um pouco de dificuldade de me situar nesta primeira semana, senti um certo conflito entre a vontade de experimentar fazer algo diferente - mais detalhado e realista - e minhas tendências naturais em termos de desenho e pintura - mais livres e expressivas. Confesso que fiquei um tanto angustiada por isso, mas no final consegui apreender muitas minúncias técnicas que penso, serão bastante úteis (já estão sendo, na verdade!). E eu não poderia deixar de mencionar também que me diverti horrores com a Taline, amiga querida que mora na Espanha (e que fui conhecer pessoalmente em Sàrmede!), que também fez o curso com o Jindra. Muito vinho, muita pasta e muita conversa fiada!

Jindra Capek e seus originais, que pudemos ver bem de pertinho!

Minha ilustração, para um conto brasileiro (cujo nome não me lembro de jeito nenhum!), em acrílica. O tema deste ano foi “Fábulas do Brasil”
A primeira semana foi ótima em vários sentidos, com direito a voltar (bêbada) pra casa à pé de madrugada, debaixo de chuva, cantando músicas italianas toscas (com a ajuda dos amigos nativos, claro!). Mas a segunda, cujo professor foi o über-foda (e do qual sou fã de carteirinha) Svjetlan Junakovic, meio que me desestabilizou com força. Foi menos “boêmia” (rá!) e mais difícil. Pela primeira vez tive a oportunidade de ouvir alguém (e que alguém!) fazer críticas construtivas ao meu trabalho. E críticas mesmo, pontuais, sinceras e objetivas. E muito pertinentes, sobre coisas que me incomodavam mas que eu não sabia bem apontar, por se tratar de meu trabalho. A isso se juntou o próprio percurso de trabalho durante a semana, e as conversas que tive com o Svjetlan, que dispararam alguma coisa dentro da minha cabeça. Como eu disse no começo, é o tipo de coisa meio íntima demais pra se dividir assim, mas foi uma experiência muito forte mesmo. Esse contato com o Svjetlan me trouxe uma energia muito grande, ele é uma dessas pessoas que contaminam mesmo! Das muitas conversas que tivemos, aquela da qual me lembro mais vivamente foi sobre a importância da inquietude para quem produz arte. Não estar satisfeito nunca é vital para a evolução. Não se deixar levar pelo fácil, por aquilo que virou fórmula. E isso me faz pensar bastante sobre como é fácil se deixar acomodar com nosso próprio trabalho… Nessa segunda semana, produzi três ilustrações. Uma em guache, que detestei (não pela técnica, claro), e outras duas em acrílico, que ao contrário, gostei bastante. E descobri que me dou bem com a tinta acrílica! O próprio Svjetlan observou isso, considerando que com guache me saí um tanto atrapalhada!

Maestro Svjetlan ao fundo com alguns alunos, e sua mesa. Embaixo, as duas ilus que ficaram legais. As fotos estão meio ruins porque foram tiradas com meu Nintendo DSi, já que minha câmera caiu no chão e quebrou no final da primeira semana…
Depois de 20 dias (sim, na verdade foram 20 dias na Itália) mergulhada em ilustração, sem essas distrações todas e sem obrigações com trabalho, voltei para a casa diferente. Como isso vai se refletir em meu trabalho, é algo que ainda não sei dizer. O fato é que voltei com muita vontade de mexer com papéis e tintas, e perdi boa parte do medo de errar sem ter um CTRL+Z. Não foi muito tempo, mas foi o suficiente para mexer bastante comigo. As informações ainda estão sendo processadas, e pouco a pouco, creio, as mudanças aparecerão. Ano que vem estarei em Sàrmede novamente, para mais.
P.S.: Àqueles que quiserem ver mais fotos, dêem um pulinho no meu Flickr!